Aula IX: Psicodinâmica das Neuroses.
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CONCLUSÃO

Partimos da distinção entre duas acepções de estrutura para caracterizar o emprego psicanalítico da noção de neurose: a estrutura (aristotélica) como essência que se exterioriza em seus efeitos e na estrutura (moderna) como concepção sistêmica de causalidade.

Parte da física que estuda movimentos e efeitos das diversas forças motrizes, tem seu conceito, na palavra em questão, mudada, na psicologia. Na Psicodinâmica das Neuroses pudemos ver que a primeira definição de estrutura neurótica carrega o risco de impor suas características à realidade clínica, tornando a neurose uma categoria hipertrófica (cicatriz notória e estática) que serviria de modelo ideológico para normalidade.

Observamos em seguida como uma segunda definição de estrutura neurótica atende os critérios metodológicos freudianos de possibilidade de contradição e de posterioridade com relação à experiência, como sendo o processo de interação, relação e influências circundantes em todos os “Locus” onde se desenvolve a permanência ou a atividade humana. Chegamos assim à necessidade clínica de construção do conceito de neurose, para a qual propusemos a noção de narrativas de sofrimento.

Examinamos as incidências do conceito de personalidade em associação com a noção de neurose e confirmamos uma tendência a pensar a estrutura como articulação psicológica de modos de reação ou controle que se exteriorizam em sintomas.

Derroga-se assim que a noção de sintoma talvez seja mais importante do que a de estrutura. Verificamos, depois, como o sucesso da noção de neurose como paradigma psicopatológico, até os anos 1970, pode ser atribuído à flutuação de paradigmas narrativos.

Vimos também como esta flutuação de narrativas sobre o sofrimento associa-se, consistentemente, tanto às reformulações diagnósticas de Freud quanto às suas alterações metapsicológicas.

Conclui-se que é preciso algum cuidado com a "potência integrativa e etiológica" do conceito de neurose. Seu papel potencialmente generalizante pode sofrer infiltrações ideológicas que o aproximem da normalopatia, constituindo-se as outras estruturas em deduções deficitárias da estrutura neurótica.

Talvez o melhor antídoto para isso seja manter a atenção às flutuações e movimentos introduzidos por novas narrativas de sofrimento.

A postulação da neurose como uma unidade etiológica, contrariamente à fragmentação sindrômica de sintomas desconectados, que reconhecemos em um sistema diagnóstico como o DSM, pode ser agora redefinida. Não se trata apenas de opor unidade causal e descrição semiológica, mas de perder, pela supremacia da noção psicológica de estrutura, a possibilidade de contradição e de redescrição exigida pela metapsicologia.

Contudo esta unidade não precisa ser definida pelo nexo fixo e regular entre sintomas e causas, uma vez que ela envolve ainda a função narrativa do sofrimento, como uma espécie de história, ainda que cortada, que une e articula os sintomas conferindo-lhe valências de sofrimento, ou, em caso contrário, impedindo e bloqueando o reconhecimento de certas formas de sofrimento.

Quem advoga a importância do conceito de neurose deve estar advertido do problema e dos riscos de hipertrofia desta noção que comprometeria a percepção da neurose dentro de um campo dinâmico e latente.

Aqui cabe um esclarecimento secundário sobre os possíveis motivos que levaram à ampla disseminação das noções de estrutura e de personalidade. Principalmente no pós-guerra a neurose torna-se sinônimo de normalopatia, exprimindo assim o neurótico-centrismo próprio de uma acepção psicológica da noção de estrutura. Ou seja, o modo prevalente de nomear o mal-estar, de narrar o sofrimento e de incluir o sintoma em discursos para a neurose.

Não se pode ignorar a incidência da expressão sofrimento, nesta passagem crucial de Lacan, tantas vezes lida e reinterpretada como chave de entendimento para a transformação social dos sintomas. Seria esta tese, agora considerada à luz da hipótese narrativa do sofrimento, reaplicável para as outras formas de conexão entre o mal-estar, caracterizado pelo déficit de experiências improdutivas de indeterminação, e os sintomas, caracterizados pelo excesso dessas experiências?

Para tanto, seria preciso mostrar como a narrativa do sofrimento é uma categoria capaz de articular o caráter refratário da nominação, próprio do mal-estar (Unbehagen) como a disposição prevalente dos sintomas à sua nomeação metafórica. Por exemplo, a expansão da imago da criança trará uma substituição das neuroses depressivas por novas formas de sofrimento traumaticamente organizadas?

Ou ainda, a expansão social do laço social organizado pelo (super eu) orientado para o consumo trará novas patologias maníacas ou impulsivas determinadas pela impossibilidade de luto mantendo um novo momento para a compreensão da psicodinâmica das neuroses.

Portanto definir a Psicodinâmica das Neuroses nos dias atuais vai muito além das correntes e das escolas clássicas, uma vez que não se pode compreender e aplicar um conceito qualquer como sendo Psicodinâmica se sua abrangência for pontual.

https://www.youtube.com/watch?v=7EMxYboQA_s

 


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