A ÉTICA EM NIETZSCHE - O SUPER-HOMEM E A BOA NOVA
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Pois bem! Comecemos por lembrar em breves palavras o que foi a Revolução Copernicana, para daí relacioná-la à necessidade de assassinar Deus. A tradição antiga e medieval considerava que o mundo possuía limites (ou seja, o mundo era finito), sendo formado por um conjunto de sete esferas concêntricas, em cujo centro estava a Terra, imóvel. À volta da Terra giravam as esferas nas quais estavam presos os planetas (o Sol e a Lua eram considerados planetas). Como a terra se encontrava no centro, o sistema astronómico era chamado de geocêntrico e o mundo era explicado pelo geocentrismo. Visto que em grego, Terra se diz Gaia ou Geia.

 

Ora, a revolução copernicana demonstrou que o sistema geocêntrico era falso e que:

1. O mundo não é finito, mas é um Universo infinito;

2. Os astros não estão presos em esferas, mas fazem um movimento (como demonstrará Kepler, depois de Copérnico), cuja forma é a de uma elipse;

3. O centro do Universo não é a Terra;

4. O Sol (como já fora demonstrado por outros astrónomos) não é um planeta, mas uma estrela, e a Terra, como os outros planetas, gira ao redor dele;

5. O próprio Sol também se move, mas não em volta da Terra.

Já que em grego, Sol se diz Hélios, por isso, o sistema de Copérnico é chamado de heliocêntrico, e a sua explicação, de heliocentrismo, pois o Sol está no centro do nosso sistema planetário e tudo se move ao seu redor.

 

Assim como aconteceu no campo científico ou na astronomia, no campo da moral os pontos de partida e os pilares sobre os quais assentam todos os valores da moralidade humana são falsos, para usar as próprias palavras de Nietzsche, são «decadentes». Durante milénios, a história mostra-nos que o homem criou e passou a acreditar na sua própria criação, conferindo a este ser exterior a si uma excelência de ser criador da humanidade. Ou seja, aquele que o próprio homem criou, passou a ser o criador do próprio homem. Irónico? A propósito disso, Karl Marx chamaria de alienação.[2] Por outro lado, segundo Nietzsche o próprio cristianismo assenta-se em bases incertas.

O cristianismo se desenvolveu a partir de um solo tão corrupto que nele todo o natural, todo valor natural, toda realidade se opunha aos instintos mais profundos da classe dominante – surgiu como uma espécie de guerra de morte contra a realidade, e como tal nunca foi superada. O ‘povo eleito’ que para todas as coisas adotou valores sacerdotais e nomes sacerdotais, e que, com aterrorizante lógica, rejeitou tudo que era terrestre como ‘profano’, ‘mundano’, ‘pecaminoso’ – esse povo colocou seus instintos em uma fórmula final que era consequente até o ponto da auto-aniquilação: como cristianismo, de fato negou mesmo a última forma da realidade, o ‘povo sagrado’, o ‘povo eleito’, a própria realidade judaica. O fenômeno tem importância de primeira ordem: o pequeno movimento insurrecional que levou o nome de Jesus de Nazaré é simplesmente o instinto judaico redivivus – em outras palavras, é o instinto sacerdotal que não consegue mais suportar sua própria realidade; é a descoberta de um estado existencial ainda mais abstrato, de uma visão da vida ainda mais irreal que a necessária para uma organização eclesiástica[3].

 

            Sendo que até mesmo a noção de Deus é ou foi falsificada, assim também se pode dizer da própria moralidade humana, hoje, assente em valores e princípios absurdos. Os valores morais, no entanto, são factores determinantes para a continuação ou não da própria humanidade, como podemos conferir nas palavras de Dom Manuel Imbamba:

 

Na verdade, são sempre os valores que dão unidade, consistência, solidez, vida e luz a qualquer cultura, tanto assim que todas as expressões culturais, tais como a política, a arte, a religião, a literatura, a educação, etc. fazem referência a um valor ou a vários valores que entendem promover e encarnar. De modo que, são os valores que iluminam e orientam a sociedade e os membros que a compõem para a consecução da realização almejada[4].

 

Entretanto, precisamos questionar: que valores temos? Ou seja, o que valoramos? A respeito desta questão Nietzsche responde criticando o valor dos valores da humanidade.

 

Este problema do valor da compaixão e da moral da compaixão (…) em primeira vista parece ser algo isolado, uma interrogação à parte; mas quem neste ponto se detém, quem aqui aprende a questionar, a este sucederá o mesmo que ocorreu a mim – uma perspectiva imensa se abre para ele, uma nova possibilidade dele se apodera como uma vertigem, toda espécie de desconfiança, suspeita e temor salta adiante, cambaleia a crença na moral, em toda moral – por fim, uma nova exigência se faz ouvir. Enunciemo-la, esta nova exigência: necessitamos de uma crítica dos valores morais, o próprio valor desses valores deverá ser colocado em questão – para isto é necessário um conhecimento das condições e circunstâncias nas quais nasceram, sob as quais se desenvolveram e se modificaram (…) um conhecimento tal como até hoje nunca existiu nem foi desejado. (…). De modo que precisamente a moral seria culpada de que jamais se alcançasse o supremo brilho e potência do tipo homem? De modo que precisamente a moral seria o perigo entre os perigos?[5].

 

            Deste modo, o homem precisa de se livrar da fantasia criada por ele mesmo, deixar de depender e de ser guiado por um ser exterior a si, não importa o nome deste ente, mas é necessário que o homem assuma a sua condição de criador de si mesmo. Não é que estejamos em desacordo com a ideia de Deus ou que estejamos a subjugar a capacidade imaginativa do ser humano em criar imagens para si mesmo, cenários inexistentes, pelo contrário, louvamos esse espírito criativo ou “dramaturgo” do ser humano. Mas daí fazer de suas criações motivos para a sua própria decadência, nós nos opomos com todas as nossas forças!

 

Visto que, o nada divinizado começa a ser desmascarado e, cada ver mais urge a necessidade de acelerar a morte desse deus, que em seu nome o homem atenta contra a sua própria vida na esperança de outra melhor. A base do caos da humanidade, no entanto, é o abandono dos verdadeiros valores espirituais e morais, porém, é importante rechaçar que o pilar desses verdadeiros valores morais e espirituais não é deus, como José Manuel Imbamba pretende exortar.[6]Certamente, Nietzsche diria o contrário daquele sacerdote cristão. Depois de assassinarmos deus, «O resto nasce a partir daqui»[7], julga-se ser necessário pensar num homem novo, mas isso passa pela auto-educação.

 

I. 2. A auto educação do homem

Na imagem nietzscheana do homem ideal, não há lugar para a piedade: a piedade nada mais é do que um fascínio mórbido pelo fracasso. É o inibidor supremo da vontade, e forma o elo que liga entre si os escravos e perpetua a sua escravidão. Nietzsche criticou o cristianismo por ter elevado este sentimento mórbido a critério único da virtude; preparou por isso o caminho para uma moralidade de escravo que, por ser fundada na piedade, rejeita inevitavelmente as possibilidades do florescimento humano[8].

A nossa pesquisa leva-nos aos derradeiros passos da metamorfose necessária ao homem novo, segundo propôs Nietzsche. Assim, procuraremos fazer uma abordagem sobre a educação do homem novo, seguindo o pensamento genuíno do autor aqui em estudo. As sociedades modernas, e o nosso país não é a excepção, regem-se de sistemas de educação de massas. Com o auxílio da história, podemos nos lembrar da necessidade após o alcance da nossa independência em massificar o ensino, por formas a elevar o número de quadros nacionais e, ao mesmo tempo, erradicar ao máximo o índice de analfabetismo. Até certo ponto, foi uma medida acertada. Pena que mais de 40 anos depois vemo-nos estagnados neste tipo de política educacional, quantitativo.

«Como aliar a necessidade de multiplicar os quadros nacionais à qualidade destes?», eis aí uma interessante questão levantada ao longo das IV Jornadas Técnico-Científicas do Instituto Superior de Ciências da Educação – ISCED/UÍGE, que decorreu nas instalações da referida instituição, de 05 a 06 de Novembro de 2015, sob o tema: «Métodos de ensino e de avaliação convergentes com as prioridades de desenvolvimento de Angola». A questão continua em aberto, entretanto.

A realidade hodierna clama por uma «transmutação dos valores» educacionais. Urge a necessidade de abandonar políticas que visam formar indivíduos «homogéneos», abandonando os actuais currículos demasiadamente vazios de vida, para os educandos. Com essa democracia educacional, não é preciso muito esforço mental para percebermos que as nossas actuais escolas assemelham-se às «catequeses», visando formar «ovelhas», ao invés de «super-homens». Com Nietzsche, a educação obedece a determinadas «tábuas de virtudes» indispensáveis para a educação da montanha.

Contudo, um olhar pela tábua de virtudes de Nietzsche dificilmente nos pode levar à conclusão de que o filósofo alemão se poderia rever nos currículos e os ambientes preponderantes nas actuais escolas estatais [e privadas] (…). Repare-se na tábua de virtudes de Nietzsche: virilidade, nobreza, conquista, dominação, coragem, excelência, distanciamento, força criativa, vontade de poder, originalidade e autonomia[9].

A proposta de Nietzsche, no entanto, aponta para uma educação «aristocrática», porquanto, ele sempre manifestou bastante admiração pela cultura grega antiga. Na voz de Zarastustra, Nietzsche contesta qualquer tentativa de democratização do ensino. Pala ele, o ensino de excelência é aquele que enaltece a vontade de poder do indivíduo, estimulando a criatividade individual, capaz de alimentar o espírito forte e a vontade de viver «o agora». Ao passo que, a ideia de «educação para todos», não só é uma ilusão, como também visa uniformizar os indivíduos, feito ovelhas do “rebanho” no matadouro[10].   

Ademais, a moção educativa de Nietzsche, por mais que pareça elitista, não pretende favorecer uma classe social ou raça, muito pelo contrário, abre-se para todos os espíritos livres e autónomos, com «vontade de poder». Não visa superiorizar os ricos em detrimento dos pobres. O que importa para o autor, é a vontade de poder, a inteligência, o espírito livre, a força criativa, a originalidade, entre outras características que promovam o aparecimento de super-homens.

A primeira vez que estive em casa dos homens, pratiquei a tolice que cometem todos os solitários, a grande tolice de me instalar na praça pública. Dirigindo-me a todos, não me dirigia a ninguém. Mas à noite tive por companheiros saltimbancos e cadáveres; e pouco faltou para que eu próprio não fosse também um cadáver. Mas na manhã seguinte vi brilhar uma verdade nova; aprendi a dizer: ‘que me importam a praça pública e a populaça e a algazarra festiva e as orelhas compridas da populaça!’. Homens superiores, aprendei comigo esta verdade: na praça pública ninguém acredita nos homens superiores. E se quiseres falar na praça pública, fazei-o; mas a populaça dirá piscando os olhos: ‘somos todos iguais’. (…). Mas recusamo-nos a ser iguais diante da populaça. Homens superiores, conservai-vos afastados da praça pública![11].

Entretanto, a abordagem nietzscheana, sobretudo as críticas que dirige aos valores, leva-nos a pensar num ideal de educação distinto do nosso sistema vigente. Com fortes referências da cultura grega antiga, o autor levou até as últimas consequências o egoísmo ou a individualidade como virtude, conferindo ao indivíduo a possibilidade de ser o criador de si próprio. «A grande preocupação de Nietzsche é desmistificar o homem: é preciso que este se volte para si mesmo para poder realizar todos os valores de que a natureza humana é capaz»[12]. Portanto, Nietzsche sempre esteve interessado em desenvolver uma filosofia da vida, e não um sistema filosófico. Assim sendo, a educação do indivíduo baseada na vontade de poder, torna-se necessária.

A educação como processo que visa promover, no indivíduo, sentimentos e hábitos que lhe permitam adaptar-se e viver feliz neste mundo, é uma missão primeiramente do próprio indivíduo. Para o autor, deste modo, a vontade de poder é o ponto de partida da auto-educação. Entretanto, questionaríamos: Qual é, para Nietzsche, o melhor sistema de educação? O sistema democrático? Ou o elitista? Será que todos os indivíduos têm o mesmo direito à educação? Ou, melhor, concebe-se em Nietzsche o pensamento de «educação para todos»?

Para responder as perguntas acima colocadas, precisamos formular a seguinte questão: qual é o sistema de educação que desenvolve no indivíduo a resistência, e a integridade, a vontade de poder capaz de suportar os inevitáveis sofrimentos e adversidade da existência, sem fugir para o mundo imaginário, o «paraíso»?

De certo modo, o pensamento pedagógico de Nietzsche, não defende uma escola de massas, uma vez que esta fundamenta e desenvolve no indivíduo o espírito de «ovelha», de rebanho, comum e alheio a si mesmo. Entretanto, o sistema democrático apresenta-se como hostil à vida e ao próprio indivíduo. Nesse sistema, os interesses e aptidões do indivíduo não contam, ele, o indivíduo, é apenas impelido a obedecer a escola/sociedade. Tudo isso observa-se a partir dos próprios currículos. Assim, como acontece no nosso país, a democratização do ensino resulta simplesmente no aumento de analfabetos escolarizados. Por outras palavras, O mais importante, para Nietzsche, não é propriamente a rejeição dos valores antigos ou do sistema educativo vigente, ou ainda, o ideal de educação moderna, mas fazer com que o mesmo adeqúe-se ou concorra para aumentar a vitalidade do indivíduo, dando-lhe mais potência. 

Embora as autoridades e outras vozes não tenham a honestidade intelectual de admitir ou afirmar, o certo é que no nosso sistema de educação as estatísticas e a realidade/factos não convergem. Ganhamos em extensão o que perdemos em profundidade. Ou seja, a evidente quantidade de quadros formados (?) não equivale à qualidade preconizada. O pensamento de Nietzsche aponta-nos, uma vez mais às «tábuas de virtudes», do homem superior. Para o filósofo, a educação deve tornar o indivíduo original e incomum, combatendo os valores como a solidariedade, a compaixão, a tolerância, a igualdade, entre outros valores (?) que tornam a vida impossível.[13] Segundo o autor, «o homem só existe para ser superado»[14]. Mas então, o que tem de errado no sistema educativo democrático, ou seja, o actual sistema? Relativamente a esta questão, pretendemos responder com as palavras de Ramiro Marques:

Para o filósofo, a educação pública estatal [e privada] visa criar rebanhos dóceis, conformistas e ignorantes. Mas a possibilidade de uma educação elitista, fortemente competitiva e ancorada na cultura clássica, tinha por finalidade criar espíritos livres, independentes e verdadeiramente superiores[15]

Para dizer por outras palavras, a «educação para todos» não passa de um projecto falhado, quando o que se pretende é a qualidade. Daí que, Nietzsche (STRATHERN, 1997), aponta para um sistema educativo da «montanha», da solidão. Porquanto, Zaratustra foi educado nas montanhas e sempre viveu longe das grandes massas. A praça pública nunca foi um bom ambiente para se desenvolver espíritos livres, com «vontade de potência». Deste modo, a educação deve munir o indivíduo de valores terrenos, reais e realizáveis. Ou seja, nada de ensinar ou aprender o que não será útil agora, nesta vida que, certamente, é a única[16]. Contudo, a educação deve ser favorável ao desenvolvimento de espíritos fortes dos próprios indivíduos.

É importante que não incorramos ao erro de pensar que pretendia Nietzsche uma educação que favorecesse uma determinada raça ou classe social. O certo é que o filósofo advoga uma educação de excelência que aumenta a vontade de poder do indivíduo e não que a aniquila. No entanto, a educação de excelência pertence a cultura superior, cultura essa que foi sempre ignorada pelo nosso sistema de educação. Oiçamos Nietzsche, a propósito:

O valor que é geralmente ignorado, é que esses professores falam a linguagem abstracta da cultura superior, a qual, pesadona e difícil de compreender como é, constitui, porém, uma grande ginástica do cérebro; é que surgem continuamente na sua linguagem conceitos, termos técnicos, métodos, alusões, que a gente nova, na conversa com os seus parentes e na rua, quase nunca ouve. Mesmo que os alunos apenas escutem, o seu intelecto adquire involuntariamente uma preformação para a maneira de ver científica[17].

Deste modo, a escola deve primar pelo desenvolvimento das aptidões dos indivíduos e não inculcá-los conteúdos que não desenvolvam a sua vontade de poder e força vital[18]. Em suma, e educação que aqui advogamos, a educação superior longe das massas, passa por uma disciplina individual e não exterior. O homem novo deve ser autodisciplinado, exigindo de si mesmo o maior sacrifício, capaz de suportar a solidão. Zaratustra habituou-se à solidão, daí que não conseguiu falar pela primeira vez as grandes massas, ao público, quando desceu da montanha (NIETZSCHE, Assim Falava Zaratustra - Um Livro Para Todos e Para Ninguém, 2008). Contudo, não se chega ao super-homem sem antes pagar o preço da solidão, autodisciplina, colocando-se distante das massas, portanto, habituar-se a viver na «montanha».

O homem nobre é o homem apaixonado, mas que é dono e senhor das suas paixões! O indivíduo distinto das massas não pode ter qualquer atracão pela igualdade. Como Zaratustra afasta-se da multidão para não se corromper, para não ter de conviver com a vulgaridade. Esse afastamento das massas permite ao homem nobre corte com os antigos valores, criando as condições para a criação de um novo mundo, ordenado por novos valores. Mas só quem estiver disposto a pagar o preço da solidão, pode aspirar a elevar-se à condição de sobre-humano. Nietzsche, ele próprio, pagou um elevado preço por essa demanda! É aquilo a que Nietzsche chama o processo de transmutação[19].

 

I. 3. O surgimento do Super-Homem: A Vontade de Poder

 

Nietzsche conclui que a humanidade era impelida por uma vontade de potência. (…) O cristianismo surgiu para pregar exactamente o oposto, com as ideias de humildade, amor fraterno e compaixão. Mas, na realidade, não passava de uma perversão subtil da vontade de potência[20].

 

Para Nietzsche, entretanto, o cristianismo opõe-se à verdadeira vontade de potência, uma vez que exorta a humildade, a pobreza, a mansidão e tantos outros ensinamentos que, segundo o autor aqui em estudo, só reprimem a vontade vital do indivíduo. Todos esses valores são característicos de escravos, de onde é oriunda a religião cristã. No entanto, Nietzsche apropria-se desse conceito para utilizá-lo como instrumento fundamental na sua observação da «motivação» interna e individual. Na sua análise da motivação humana, desmascara todos os actos que eram tidos como morais ou dignos e passam a ser, para o autor, «decadentes», e imorais.

 

Importa lembrar que o conceito de Super-homem é indispensável ao estudarmos o autor e encontra-se entre as obras de Nietzsche. Entre vários escritos, o autor criou o termo super homem para designar um ser superior aos demais que, segundo o autor, trata-se do tipo ideal para edificar a humanidade, já está vê-se num estado de decadência. No entanto, esse estado de super-homem não é alcançado por todos, mas apenas pelos indivíduos dotados de força vital. Na visão de Nietzsche o ser humano superior não deveria se unir a outro ser humano que não fosse igualmente superior. Ou seja, para o homem superior, o conceito de igualdade é desconhecido. Em sua visão, o amor ao próximo é um  impedimento ao bom senso e o homem não deveria tomar decisões que afectem a sua vida, em momentos de paixão, devendo o amor ser deixado para a populaça, cabendo ao ser superior, o super-homem, unir-se com outro ser superior, para assim, dar continuidade ao aperfeiçoamento da espécie humana.

 

I. 4. O Homem Novo

 

Como Zaratustra afasta-se da multidão para não se corromper, para não ter de conviver com a vulgaridade. Esse afastamento das massas permite ao homem [novo] nobre corte com os antigos valores, criando as condições para a criação de um novo mundo, ordenado por novos valores[21].

 

Super-homem é o ponto de chegada para todo indivíduo, não decadente, e para toda humanidade. A princípio Nietzsche acreditava no surgimento de uma nova espécie de ser, porém, passou a reflectir na possibilidade do seu super-homem ser um indivíduo superior, que se elevasse acima da mediocridade e que a sua existência se devesse mais ao esforço e a educação, do que pela «selecção natural». O super-homem concebido por Nietzsche deveria ter uma educação superior, que melhorasse a condição humana, condição esta subordinada as mais intensas responsabilidades e cobranças por melhorias constantes, sem enfraquecimentos ou tolerâncias, onde o corpo e a alma aprenderiam a obedecer e a vontade a subordinar-se a disciplina. Daí o seu conceito de Vontade de Potência.

 

Segue-se, porém, que a compreensão em profundidade da vontade de poder, segundo Nietzsche, implica ainda uma nova compreensão do mistério do tempo, já que só em função deste se poderá entender o fenómeno da criação. É no fluir do tempo que a vida se eleva para formas de poder cada vez mais elevadas, já que cada etapa tem por missão preparar a seguinte etapa. Mas o problema consiste precisamente em saber se o tempo consiste numa mera serie infinita de momentos, comparável a uma linha que se prolonga até ao infinito, dividida pelo presente em duas partes hetero-géneas, que são o passado e o futuro, ou se, no final de contas, há que contar com uma sabedoria mais profunda a respeito do próprio tempo. Ora é precisamente neste ponto que Zaratustra se revela como anunciador de uma nova sabedoria e de um novo pensamento. (...) Certo, contudo, é que o novo saber do Zaratustra, o seu segredo mais íntimo e incomunicável, tem simplesmente a ver com a natureza do tempo, com uma visão do mesmo para além da diferença entre o passado e o futuro, condição de possibilidade para a afirmação da vontade de poder[22].

 

Entretanto, a Vontade de Potência, em Nietzsche, é uma expressão da vontade de a (STRATHERN, 1997; NIETZSCHE, Assim Falava Zaratustra - Um Livro Para Todos e Para Ninguém, 2008)uto-realização individual. Não pode ser encarada como uma objecção à existência humana, mas como uma capacidade de avaliar e compreender a realidade circundante, de modo a transformá-la. Este conceito desenvolvido pelo nosso autor confere ao indivíduo a capacidade criativa, compreendendo que o homem, enquanto indivíduo é capaz e deve transformar a sua vida e o mundo constantemente. Esta ideia, possivelmente, fundamenta-se no conceito de «devir», dado que Nietzsche nutria uma notável simpatia pelos pré-socráticos. Ademais, a Vontade de Potência, torna o indivíduo «legislador» de si próprio, na medida em que passa a assumir a responsabilidade da sua transformação, pela força interior.

 

Contudo, a nova significação que o nosso autor dá ao conceito da vontade, inicialmente formulado por Schopenhauer, consiste na individualidade positiva. Incide basicamente no «domínio pessoal sobre o mundo». Para Nietzsche, a crença verdadeira permite ao indivíduo aumentar o seu poder (SCRUTON, 2010). Daí que, o cristianismo diminui a vontade de poder, uma vez que, para o nosso autor, o cristianismo é desde a sua origem uma religião de escravos e continua com essa sua característica genealógica. A religião cristã, com os seus ensinamentos, nada mais faz senão acabar com qualquer possibilidade de o indivíduo aumentar o poder. Concluamos com Roger Scruton, considerando que:

 

Na imagem nietzscheana do homem ideal, não há lugar para a piedade: a piedade nada mais é do que um fascínio mórbido pelo fracasso. É o inibidor supremo da vontade, e forma o elo que liga entre si os escravos e perpetua a sua escravidão. Nietzsche criticou o cristianismo por ter elevado este sentimento mórbido a critério único da virtude; preparou por isso o caminho para uma moralidade de escravo que, por ser fundada na piedade, rejeita inevitavelmente as possibilidades do florescimento humano[23].

 


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