Aula XI - Ética Profissional Psicanalítica
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AULA XI - ÉTICA DA PROFISSÃO PSICANALÍTICA.

Ética

Uma Definição Filosófica e Etimológica

A palavra derivada de dois termos gregos muito semelhantes no seu significado e pronúncia. Éthos significa hábito ou costume - entendidos, com uma certa superficialidade, como maneira exterior de comportamento; êthos tem um significado mais amplo e rico: o de lugar ou pátria onde habitualmente se vive e o caráter habitual (ou maneira de ser ou até forma de pensar) da pessoa. Assim, o ético poderia traduzir-se por modo ou forma de vida, no sentido mais profundo da palavra, compreendendo as disposições do homem na vida, o seu caráter, costumes e, claro, também a moral.

O tema nuclear da Ética são os atos do ser humano, enquanto ser possuidor de razão a Ética estuda o Bem e, assim, o seu objetivo é a virtude na condução da vida Heinemann formula assim a questão central a que esperamos que a Ética responda: 

  • Que devo escolher? 
  • Há uma hierarquia de valores? 
  • Que espécie de homem devo ser? 
  • Que devo querer?  
  • Que devo fazer?"

 

 "Ser ético, é muito mais que um problema de costumes, de normas práticas. Supõe uma boa conduta das ações, a felicidade pela ação realizada e a alegria da auto-aprovação diante do bem feito, no dizer de Aristóteles."

 

“Sei que muito mais poderia ser dito sobre cada um dos tópicos que abordei aqui...O objetivo nunca foi entregar uma reflexão pronta mas abrir um espaço que torna possível um olhar novo... uma prática diferente...”   

                    (Kappeler; Lather; 1992)


Rosimeri Bruno Lopes | Março/2013

Resumo: Esse artigo tem como objetivo descrever as diferenças entre ética e moral bem como fazer uma breve análise da Ética na clínica psicanalítica, considerando o Psicanalista na relação consigo mesmo, a sua relação com seus pacientes, a sua conduta como profissional repensando a sua relação com a sociedade. Acreditamos que a ética é o que possibilita legitimar a Psicanálise dando-lhe significado.

 

Toda cultura e toda a sociedade institui uma moral, isto é, valores concernentes ao bem e ao mal, ao permitido e ao proibido, e à conduta correta, válidos para todos os seus membros. Culturas e sociedades fortemente hierarquizadas e com diferenças de castas ou de classes muito profundas podem até mesmo possuir várias morais, cada uma delas referida aos valores de uma casta ou de uma classe social. No entanto, a simples existência da moral não significa a presença explícita de uma ética, entendida como filosofia moral, isto é, uma reflexão que discuta problemize e interprete o significado dos valores morais (CHAUÍ, 2000).

Chauí (2000) diz ainda que nossos sentimentos, nossas condutas, nossas ações e nossos comportamentos são modelados pelas condições em que vivemos (família, classe e grupo social, escola, religião, trabalho, circunstâncias políticas, etc.). Somos formados pelos costumes de nossa sociedade, que nos educa para respeitarmos e reproduzirmos os valores propostos por ela como bons e, portanto, como obrigações e deveres. Dessa maneira, valores e deveres parecem existir por si e em si mesmos, parecem ser naturais e intemporais, fatos ou dados com os quais nos relacionamos desde nosso nascimento: somos recompensados quando os seguimos punidos quando os transgredimos. No pensamento filosófico dos antigos a ética era concebida como educação do caráter do sujeito moral para dominar racionalmente impulsos, apetites e desejos, para orientar a vontade rumo ao bem e à felicidade, e para formá-lo como membros da coletividade sociopolítica. Sua finalidade era a harmonia entre o caráter do sujeito virtuoso e os valores coletivos, que também deveriam ser virtuosos.

A psicanálise mostra que somos resultado e expressão de nossa história de vida. Não somos autores nem senhores de nossa história, mas efeitos dela. O sujeito ético, isto é, a pessoa, só pode existir se for consciente de si e dos outros, ser dotado de vontade, capacidade para controlar e orientar desejos, impulsos, tendências, sentimentos e capacidade para deliberar e decidir, ser responsável e ser livre. Como princípios da Ética Psicanalítica consideramos o Psicanalista na relação consigo mesmo, o Profissional e a sua relação com seus pacientes, sua conduta como Profissional de interações e a sua relação com a “sua” Sociedade (CHAUÍ, 2000).

O objetivo desse artigo é abordar alguns conceitos sobre a ética e no pensar a Ética como uma possibilidade de reflexão sobre a profissão do analista e sua relação lógica com a realidade, no que se refere a sua aplicação prática e seus efeitos terapêuticos.

1 A Ética e a Moral

Uma vez que se pretenda estudar a questão ética do analista neste trabalho, é de fundamental importância definir o conceito de ética, fazendo uma breve diferenciação com o termo moral - uma vez que ambos os termos se relacionam e tendem a ser confundidos um com o outro.

Etimologicamente, o termo moral vem do latim mos ou mores, que significa “costume” ou “costumes”, no sentido de conjunto de normas ou regras adquiridas por hábito. Já ética vem do grego ethos que significa “modo de ser” ou “caráter”, enquanto forma de vida também adquirida ou conquistada pelo homem. Originariamente, portanto, ambos os termos não correspondem a uma disposição natural, mas sim a algo adquirido ou conquistado por hábito (SILVA, 1999).

Quando falamos de ética é quase inevitável pensar na moral. A definição de ética e moral leva a insinuação de que ambas assumem a mesma identidade. Neste bojo, a ética seria a teoria dos costumes, ou a ciência dos costumes, enquanto a moral seria tomada como ciência, haja vista ser o objeto da mesma. A Ética é o conjunto de normas morais pelo qual o indivíduo deve orientar seu comportamento na profissão que exerce e é de fundamental importância em todas as profissões e para todo ser humano, para que possamos viver relativamente bem em sociedade (JORGE, s.d.).

Contudo, acreditamos que definir o termo “ética”, e, além disso, diferenciá-lo do termo “moral”, não é tarefa simples, pois existem várias concepções de ética e de moral, inclusive dentro do próprio campo psicanalítico. Quando tentamos incluir nessas definições uma concepção também filosófica do problema, como exige nossa análise (que parte da maneira como o problema ético é construído pela filosofia, para então criticá-lo à luz das teorizações freudianas), a questão da definição desses termos se complica ainda mais (GASPAR, 2007).

Segundo Martins (1998), a ética se diferenciaria da moral por meio do respeito à singularidade dos sujeitos, ou às diferenças que subsistem à revelia das tentativas de padronização pretendidas pelas regras supostamente universais. Nesse sentido, a moral se colocaria contra a singularidade e ao lado da oposição entre o indivíduo e a sociedade, pois obrigaria o sujeito a se submeter a um critério externo, a ceder alguma coisa de sua singularidade em prol da normalização das condutas.

Acreditamos que esta diferenciação entre ética e moral está de acordo com o que Lacan formula sobre esse tema no seminário sobre A ética da psicanálise. Para ele, a moral estaria atrelada à crença em um Bem Supremo e terminaria sempre por engendrar um ideal de conduta para o sujeito. A moral incidiria, portanto, sobre o campo do ideal (o imaginário) (GASPAR, 2007).

2 Ética na Clínica

Segundo Moura (2009), é a Ética que da forma e contornos à Psicanálise; toda a sua conceituação teórica e método terapêutico; suas formas de tratamento e suas possíveis curas implicam a Ética e se fundamentam na Ética. Por considerarmos que não é possível falar em psicanálise sem falar em Ética, abordaremos seus conceitos sob uma perspectiva Ética, em uma tentativa de esclarecer alguns pontos da teoria que por sua vez podem ajudar na compreensão dessa Ética.

Uma questão ética importante a ser considerada é que o analista está ali, naquele lugar, para atender os objetivos daquele que o procura para o tratamento, quaisquer que eles sejam. Objetivo propriamente psicanalítico refere-se, em um primeiro momento, à compreensão da alma do analisando. O mais poderoso instrumento de compreensão do analisando é a capacidade de identificação do analista. O analista poderá se ajudar deixando-se atravessar por três insinuâncias: 1a - o objetivo terapêutico da relação, 2a – percepção de seus próprios conflitos e carências 3a - a compreensão do funcionamento do psiquismo do analisando através das identificações complementar e homóloga (ARMONY, s.d.).

Freud refere-se à análise do terapeuta como uma forma de aprender psicanálise. Freud leva em consideração que o ensino teórico, não pode dar convicção da justeza da teoria. Essa convicção (ética) só se adquire tendo a experiência da justeza desse saber, na própria análise. Portanto são os próprios conceitos psicanalíticos (a sexualidade, o desejo) e o processo analítico que vão configurar e afirmar a Ética na psicanálise (MOURA, 2009).

De acordo com Armony, s.d., o analista deveria ser um observador-participante do jogo subjetivo que se estabelece entre analista e analisando para estar em condições de direcionar suas intervenções no sentido da transformação do analisando. São as necessidades do analisando que deveriam ser atendidas por isso, é preciso que o analista perceba a sua própria dinâmica dentro da relação analítica, a fim de evitar que seus conflitos e as suas dificuldades, fizessem com que ele se aproveitasse do analisando para as suas próprias necessidades psicológicas.

É interessante e importante que o psicanalista exerça sua profissão sem contaminar ou deixar-se contaminar por seus analisandos. Freud, ao falar da transferência, diz que o psicanalista sabe que está lidando com forças altamente explosivas e, por isso, deve avançar com muita cautela. O mesmo vale para a contratransferência, onde o analista tem que ficar atento para que o remédio para seus clientes não vire veneno para ele mesmo. (FERREIRA, 2008)

Segundo Bernardi (2006), ao falar de contratransferência, Freud coloca os aspectos éticos em primeiro plano e com frequência adverte os analistas para o cuidado que devem ter com essa manifestação, já que compreende esse processo primordialmente como obstáculo ao tratamento. A sua ética corresponde as suas recomendações de que, para o estabelecimento do processo analítico e da associação livre do paciente, o analista deve ser como um espelho que irá refletir apenas as revelações dos pacientes, deixando de lado a sua personalidade, convicções e desejos.

Assim como a transferência, a contratransferência teria sua procedência no material infantil recalcado, neste caso, do analista. Freud pensava na contratransferência como uma fonte de perturbação. Decorre então, a exigência do analista de se submeter a uma análise pessoal antes de se permitir iniciar o seu trabalho com pacientes e a obrigação de jamais descurar sua auto-análise. Tornamo-nos cientes da contratransferência que surge no médico como resultado da influencia no paciente sobre os sentimentos inconscientes do seu analista (MOURA, 2009).

Para Lacan, o desejo do analista é o que, em última instância, opera na prática da Psicanálise. Por isso, é ético em Psicanálise que cada analista investigue, em sua análise, o seu desejo de ser analista. Se o analista não dá vazão ao seu desejo, ou seja, coloca em questão o que é melhor para ele, ou ainda, o que ele considera “correto”, ou “ideal” para seu paciente, então isso impossibilitará que o desejo do paciente se manifeste. A regra da abstinência é o correlato direto da livre associação. É esta a máxima lacaniana acerca da ética da psicanálise para o analista: ‘Não ceder quanto ao seu desejo’. A Ética na Psicanálise propõe ao analista acolher, mas nunca responder, à demanda que lhe é dirigida pelo analisando (ROSA & ROSA, 2009).

Ainda em Rosa e Rosa (2009), responder ao que o analisante pede significaria calar o desejo, e, na análise, o que se busca é fazer o homem tornar-se íntimo de seu querer, de seu desejo. Ao não responder à demanda, o analista convida o analisando a deslizar em sua cadeia de significantes, a falar sobre suas fantasias e, com isso, o desejo aparece como resultado do trabalho de análise. Freud, em seus escritos sobre a técnica psicanalítica, fala sobre o que poderia desviar o analista de sua função. O que pode ocorrer é que, por conta de ruídos na escuta, devido a conteúdos próprios, o analista passe a agir como educador, sob a ótica da moral, com planos e anseios para a vida do analisando, deixando de ouvir o sujeito que ali está.

 

Referências:

ARMONY, Nahman. Neutralidade em Psicanálise. Disponível em: http://www.saude. inf.br/nahman/neutralidade_em_                psicanalise.pdf. Acesso em 08 de janeiro de 2012.

BERNARDI, B. L. (2006). Origem e Evolução Histórica do Conceito de Contratransferência. In J. Zaslavsky, & M. J. P. Santos (Org.). Contratransferência: teoria e prática clínica. Porto Alegre: Artmed, pp. 17 – 29.

CHAUÍ, Marilena. Convite a Filosofia, 2000. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/convite.pdf. Acesso em 23 de janeiro de 2012.

FERREIRA, Rodrigo Mendes. O corpo do psicanalista: possíveis impactos da clínica no corpo do analista. Reverso,  Belo Horizonte,  v. 30,  n. 56, out.  2008 . Disponível em . Acesso em  07  jan.  2012.

GASPAR, Taís Ribeiro. O sentimento de culpa e a ética em psicanálise. Psyche (Sao Paulo), São Paulo, v. 11, n. 20, jun. 2007. Disponível em . Acessos em 05  jan.  2012.

JORGE Claudia. Ética Profissional. Disponível em: http//artigo.netsaber.com.br/resumo_a rtigo_7714/artigo_sobre_etica_profissional. Acesso em 05 de janeiro de 2012.

JUNQUEIRA, Camila. Ética e Consciência Moral em Freud, Klein, Hartmann e Lacan: a Teoria, a Clínica e o Outro. Disponível em: http://www.fundamentalpsychopathology. org/anais2006/5.15.1.htm. Acesso em 04 de janeiro de 2012.

MARTINS, A. Relações local-global nas redes transdisciplinares: globalização e singularidade. Revista de Ciências Humanas (UGF). Rio de Janeiro. 21(1): 47-72, 1998.

MOURA, J. A. A ética na Psicanálise a partir de seus conceitos centrais e sua relação com a terapêutica, 2009. Disponível em: https://psicologado.com.br/abordagen/    psicanalise/a-etica-na-psicanalise-a-partir-de-seus-conceitos-centrais-e-sua-relacao-com-a-terapeutica. Acesso em 06 de janeiro de 2012.

ROSA, M. I. P. D; ROSA, A. C. A Ética na psicanálise. Akrópolis, Umuarama, v. 17, n. 1, p. 41-44, 2009. Disponível em: http://revistas.unipar.br/akropolis/ article/view/2841/2109. Acesso em 08 de janeiro de 2012

SILVA, Márcia Vasconcellos de Lima. A Questão Ética do Analista (Um Estudo Crítico do Caso Dora), 1999. Disponível em: http://www.portaldapsique.com.br/Artigos /Questao_etica_do_analista.htm. Acesso em 07 de janeiro de 2012. 

 

 


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