Aula XII: Semiologia em Psicanálise
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Comunicação, Semiologia e Psicanálise:

Na pós-modernidade, o século da comunicação está sendo vivido. O mundo para alguns, se constitui numa autêntica "aldeia global", onde habitam “tribos planetárias”, possibilitadas uma e outra, pelas novas tecnologias de informação e comunicação.

As novas tecnologias eletrônicas tendem a encurtar distâncias, reconstituindo uma tradição oral na forma de comunicação do ser humano. Outros tantos sentem uma sobrecarga de "informação" e "comunicação" que não se traduz, necessariamente, em maior aproximação e solidariedade entre os homens, mas sim conduzindo antes a novas formas de individualismo e etnocentrismo.

O termo "Comunicar" significa "pôr em comum", em seu sentido etimológico. Simplificando o processo de comunicação, pode-se entender o mesmo como a troca de uma mensagem entre um “Emissor” e um “Receptor”, cujos “Signos” desempenham um papel fundamental.

Sem Signos, não há mensagem, nada pode ser posto em comum. Os Signos são tão importantes que permitem (e costuma) ser definida a Semiótica de forma essencial, como a "ciência dos signos". Semiótica é a ciência, ou teoria geral da produção dos signos. Teve sua origem na Rússia, na Europa Ocidental e na América. A semiótica, atualmente, é um campo de grande amplitude e variedade teórica.

O autor Charles Peirce foi o fundador da semiótica. Saussure, no Curso de Linguística Geral, falava de uma semiologia, que pode ser comparada ou diferenciada da semiótica propriamente dita. Atualmente, Umberto Eco é um especialista em semiótica. Ferdinand Saussure estabeleceu a distinção entre “língua” e “fala” para que o indivíduo possa reconhecer um signo como tal e atribuir-lhe seu designado correspondente.

É necessário que previamente possa apoiar-se, por um lado, nas representações psíquicas, ou seja, os significantes, dos “sons” concretos e, por outro, nas representações psíquicas, ou significados, dos referentes também concretos com os quais se relacionam esses sons. No sentido saussuriano, os “signos” psíquicos serão constituídos pela união dos “significantes”, ou seja, a imagem acústica dos sons, e dos “significados”, portanto os conceitos do referente.

A estrutura ou o código é determinado pela oposição de dois signos 31 complementares. O autor denomina “valor”, o estudo específico da relação lateral que se estabelece entre os significantes ou entre os significados. O usuário na comunicação poderá estabelecer relações semiológicas corretas entre “sinais” e “mensagens” se tiver previamente formado de maneira correta as classes significantes e significadas correspondentes.

Quando o usuário funciona como emissor e transmite uma mensagem por meio de um sinal, faz um “incoding”, uma codificação. Quando funciona como receptor, recebe um sinal e dele deduz uma mensagem, faz um “decoding”, ou seja, uma decodificação. No caso das mensagens inconscientes, por exemplo, seria estas auto mensagem que o sujeito codifica por si mesmo através das representações, e depois não sabe mais decodificar. Dentro dessa perspectiva, o psicanalista trabalha a título de intérprete entre o inconsciente, emissor que transmite codificado, e o pré-consciente, receptor que não pode decodificar esse código, sob a pena de experimentar desprazer.

Na patologia da comunicação do paciente psicanalítico, são percebidos fenômenos de codificação ou de decodificação patológicas ligadas a uma delimitação incorreta de classes significantes e de classes significadas; isso tem como consequência uma pragmática incorreta da comunicação. O paciente psicanalítico se põe em comunicação patológica, de um ponto de vista pragmático, com seus objetos - na transferência, com seu analista -, na medida em que as classes significantes de seu código informativo (equivalentes, às representações de palavras, segundo Freud) e as classes significadas desse mesmo código (ou representações das coisas).

Na clínica o que está em vigência, enquanto comunicação e linguagem, seja formal ou informal, é a questão do “sentimento oculto” crucial na compreensão do “conflito psíquico”, o qual pode ser latente, ou se manifestar por seus derivados, onde o paciente pode: a) adotar mecanismos de defesa para neutralizar impulsos motivacionais inaceitáveis pelo superego por serem conflitantes com tabus morais; b) temer, consciente ou inconscientemente, a instalação de consequências insuportáveis, função da exteriorização dos assim chamados sentimentos ocultos; c) exprimir e/ou sugerir sintomas subjetivos formulados com o formato de queixas sobre si mesmo. O analista deve estar preparado para a “escuta” diante do “dito”, a fim de que se houver um sintoma, em cada palavra escutada, possa ser o interprete. Exige a suspensão do juízo – epoché – ou seja, uma atitude como a dos antigos céticos, o que constitui em não aceitar, nem refutar, em não afirmar ou negar. Constitui a imperturbabilidade ante o 32 sensível exposto no verbal e no não-verbal do paciente, algo difícil de conseguir, mas que se impõe sem alternativa e que implica na “neutralidade” sem a qual não há psicanálise.

Todo o ser humano, em função da própria natureza, a todo o momento sente, pensa, julga e principalmente interpreta, pois vive a inferir a partir do significante e do significado que é ouvido, do tocado, do gosto sentido, do olhar lançado sobre algo, ou do perfume aspirado. Assim, em cada palavra o analista se depara inevitavelmente com o signo, e este composto de significante e de significado, implicando denotações verbais e não-verbais.

O signo apresenta características de um estojo, pois além do dito, há palavras, atos e produções imaginárias que o compõem. Sempre trazem dentro de si, algo muito importante, valioso para ser compreendido, a partir do que o paciente produza consciente ou inconscientemente. Justifica-se a abertura desse estojo, pois no signo há também o estilo, ou seja, o “como diz” e que se junta à situação. Assim a par disso, mecanismos de defesa são instalados devido aos preconceitos e o temor da rejeição do ser humano.

Este já nasce para desfrutar prazeres, o que justifica a situação cautelar de cada um no momento da produção de palavras mesmo que de uma maneira informal. As defesas são usadas para neutralizar as dores mentais, ou para controlar as pulsões inaceitáveis pelo superego. Por isso, a cada representação de toda a ordem e afetos dolorosos que surgem, o ego faz adaptações. Os mecanismos de defesas podem tomar formatos de comportamentos mal adaptados o que provoca o surgimento de sintomas neuróticos, e por vezes referidos às funções defensivas relacionadas com sentimentos, pulsões e afetos que insurgem de maneira disfarçada, em meio aos discursos, os verbais e os não-verbais. De alguma forma isto reforça a importância de um “olhar semiológico psicanalítico” especialmente quando tudo que se tenha do paciente seja um bocejo, um pigarro, um muxoxo (estalar de língua), um suspiro, uma olhada no relógio, não esquecendo que as cinco posturas citadas são nada mais nada menos do que “discursos” altamente importantes.

Na clínica, a prática mostra que a demanda do paciente provem de seu inconsciente. Devido a isso, ele tem dificuldade em responder por que vem buscar o terapeuta. O analista deve ter a preocupação com a coerência na formação das frases, enquanto semântica, e através de sintaxe, buscar a relação coerente entre os símbolos adotados no campo analítico. Ao inferir, seja ao pontuar ou ao interpretar (quando seja possível),considerar: a fonte da angústia; as defesas e seus graus de importância e eficácia contra a angústia; e a natureza da pulsão que busca descarga.

O paciente deve dizer ao analista tudo o que este precisa saber sobre ele em seus discursos verbais, como também informar tudo o que não pensa dizer sobre “si mesmo”. 33 Entretanto, o analista precisa ter a percepção, através das manifestações e linguagem não verbais, sobre o que significa não perguntar, e “aguardar e decodificar as mensagens e comunicações” transmitidas por aquele. No discurso que o paciente traz, feitas as interpretações, o analista deve perceber se estas foram adequadas quando: a angústia diminuir e houver melhora na sintomatologia.

Quando isto não acontece, é importante pesquisar o sentimento de culpa que pode se encontrar no nível inconsciente a exigir análise das formações de compromisso que pode surgir nos sonhos, se os apresentar, nas parapraxias, nos chistes, nas fantasias, nas lembranças, nas associações livres, sobretudo, de forma aprofundada.

O analista deve trabalhar focado nas “falas”, ações e os estados afetivos, especialmente aqueles que influenciam os sentimentos. Para ampliar o campo de visão e escuta da fala proferida pelo paciente, o terapeuta pode observar uma divisão no discurso, segundo a sugestão de alguns autores. Estes discursos terapêuticos se entremearão nas comunicações que venha fazer ao paciente, tais como: a) Descritivo - reconhecer os seus próprios padrões de comportamento patológico; b) Reconstrutivo – apontar o padrão seguido por ele, quando externalizar afetos, discursos de toda ordem, bem como atitudes postas nos termos de suas relações objetais no lar; c) Interpretativo – promover a produção do insight, possibilitando que o analista interprete os mecanismos de defesa, a importância do superego, os traços de angústia, de inibição e de raiva; d) Requalificação ou ressignificação - corrigir as desqualificações do “self” e de outros elementos nos discursos deste com o analista, levando o indivíduo a compreender sua tendência para denegrir a si mesmo e/ou os outros; e) Prospectivos - o analista tenta produzir futuros “out sights” no paciente e/ou também o reconhecimento de novas possibilidades comportamentais e cognitivas em si mesmo ou em outros; f) Diretivo - analista tenta provocar o paciente para que compreenda como pode cooperar ativamente no processo terapêutico com o fim de torná-lo mais efetivo; g) Convencional – usar e direcionar a conversa para o tema da análise, quando o paciente encontra com o analista no elevador, ou mesmo numa festa; o analista não pode assumir uma postura paternalista, mas manter as regras vigentes do “setting analítico”, visto que este não constitui o espaço, mas as regras, quando foram acordadas. 34 8. Entendendo a Semiologia A semiótica se funda na lógica em sentido geral, no dizer de Peirce, quando assim denomina a doutrina dos signos. O autor descreve a doutrina como “quase necessária” ou formal ao observar os signos e dizer de seus caracteres.

O processo de observação abstrativa envolve uma cientificidade na relação lógica proposta pela semiologia, ou seja, uma inteligência capaz de apreender através da experiência e que é possível ocorrer em pessoas comuns. É uma experiência familiar a todo o ser humano desejar algo que está totalmente longe de seus recursos presentes e complementares ao seu desejo, se perguntar: “meu desejo dessa coisa seria o mesmo se eu dispusesse de meios de realizálo?”

Respondendo à pergunta que se faz, o indivíduo examina seu interior, e é a isso que Peirce denomina de observação abstrativa. A pessoa faz na imaginação, uma espécie de esboço, considerando modificações, estado de coisas, o que deverá se exigir e observar o que examinou, a fim de saber se seu desejo é possível, mesmo que não imediatamente. Através desse processo, que se assemelha a um raciocínio matemático, pode-se chegar a conclusões sobre o que seria verdadeiro a respeito dos signos de todos os casos, conquanto a inteligência que dele se serviu. Um signo, ou “representâmen”, é aquilo que de certa maneira representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, ou seja, cria na mente da pessoa, um signo equivalente, ou talvez mais desenvolvido.

O signo representa alguma coisa, representa o seu objeto, representa um tipo de ideia no sentido de ter um similar, é a mesma ideia e não a cada intervalo uma nova ideia. A palavra é um signo e será usada para denotar um objeto perceptível ou imaginável num certo sentido. A palavra estrela, por exemplo, é um signo, não é imaginável, pois é a mesma palavra quando escrita e quando pronunciada.

A palavra significa “astro com luz própria”, possui outro significado diferente quando empregada para dizer de um “artista célebre”, ou em dado momento para dizer de que alguém tem “sorte”. Assim esse algo serve para significar outra coisa, que é chamada de “objeto”.

O signo deve ser algo distinto de seu objeto, ele irá representar alguma outra coisa. Saussure, por ser um linguista, considerava como signo a palavra, principalmente a palavra oral. Na concepção deste autor, o signo é bifacial onde são correlacionados apenas dois elementos, sendo um a unidade entre o som verbal e uma ideia, chamado de: “significante”, entendido como o som verbal, ou seja, a imagem acústica; e “significado”, esta ideia ou a imagem conceptual, que é o objeto.

Então temos que: signo = significante (som) + significado (objeto). 35 Cada palavra é um signo ou uma unidade para Saussure. Um discurso é uma sequência de signos. O signo linguístico une o conceito com a imagem acústica, pois estes dois elementos requerem-se um ao outro. Afirma o autor que o “caráter psíquico das nossas imagens acústicas surge bem claro quando observamos a nossa própria linguagem. Sem mover os lábios nem a língua, podemos falar conosco ou recitar mentalmente um poema”. Segue dizendo que “é porque as palavras da língua são para nós imagens acústicas que ao devemos falar dos “fonemas” que as compõem”, (SAUSSERE, 1916). O “conceito” pode ser substituido por “significado” e a “imagem acústica” por “significante”, sendo que o “signo” é o resultado dos dois juntos.

 O signo é arbitrário quando associado um significante a um significado. A prova da arbitrariedade esta entre as línguas e a existência de várias línguas, como também a arbitrariedade envolve a cultural, o simbólico e o convencional. Saussure (1916) afirma que nenhuma sociedade conheceu e conhece a língua senão como produto herdado das gerações anteriores que se deve receber e manter intacto, pois o único objeto real da linguística é a vida normal e regular de um idioma já constituído. A imagem acústica não é a palavra falada, ou o som material, mas a impressão psíquica desse som.

A distinção entre “língua” e “fala” foi estabelecida pelo autor, para que o paciente possa reconhecer o signo como tal e atribuir-lhe seu designado correspondente. Torna-se necessário que possa previamente apoiar-se, por um lado, nas representações psíquicas, ou significantes dos sons concretos, e por outro lado, nas representações psíquicas ou significados dos referentes também concretos com os quais se relacionam esses sons. Peirce considerou o “signo”, qualquer coisa que represente outra coisa para alguém, não importa a espécie. Para este autor, o signo é um elemento triádico, onde se correlacionam três elementos, aos quais chamou de representâmen, objeto e interpretante. Esta relação o autor veio denominar de “semiose”.

O “representâmen” é a coisa que representa; o “objeto” é a coisa que é representada; e o “interpretante” é a terceira coisa que surge na mente do intérprete no momento em que ele percebe aquela primeira coisa. Os três elementos possuem correlação entre si: uma coisa só aparece como signo de uma outra coisa se surgir uma terceira coisa; esta terceira coisa provem de experiências anteriores a partir da qual a interpretação da primeira coisa possa ser realizada na mente de quem percebe. Nas relações triádicas envolvem: a “comparação” que faz parte da natureza das possibilidades lógicas; o “desempenho” que faz parte da natureza dos fatos reais; o “pensamento”, que faz parte da natureza das leis. O significado é a palavra equivalente no mesmo ou em outro idioma. Ele se constitui na representação, ou na linguagem do significante. O significado corresponde ao 36 conceito ou à noção do objeto. É dito de todo o objeto, forma ou fenômeno que representa algo distinto de si mesmo, tal como: a “cruz” é o significado do “cristianismo”; a cor vermelha é o significado de “pare” no código de transito; a bandeira pode ser o significado do “país”, do “time de futebol”, do “clube náutico”, entre outros tantos. A partir da teoria no sentido saussuriano, os “signos” psíquicos serão constituídos, portanto, pela união dos “significantes” (imagem acústica dos sons) e dos “significados” (conceitos do referente). O usuário poderá estabelecer relações semiológicas corretas entre “sinais” e “mensagens” se tiver previamente formado de maneira correta as classes significantes e significadas correspondentes. O significante tem um código afetivo, como por exemplo, a angústia, relacionado a um fato psíquico no inconsciente, não sabido e ligado a um objeto referido. Exemplo: a angústia que pode ser aniquiladora, ligada ao desprazer, à dor, ou a angústia diante de um prazer.

O outro elemento do signo é constituído pelo significante, que é a parte fônica, ou a imagem acústica de um fonema provido de significação. O significante apresenta um código informativo, como: o som, os sintomas, as relações objetais.

Referências:

1. CHNAIDERMAN, Miriam. Ensaios de psicanálise e semiótica. São Paulo: Escuta, 1989.

2. CICHOSKI, Luiz Vitório. Semiologia Psicanalítica. Rio de Janeiro: Isbn 85-87591-25-8, 2001.

3. CIRINO, Antonio Piton & outros. Uma contribuição da semiótica para a comunicação visual na área da saúde. Interface - Comunicação, Saúde, Educação. Botucatu, SP; Vol. 15, Nº 38; Julho/ Setembro, 2011. Disponível em: ISSN 1807-5762Print version ISSN 1414-3283. Acesso em: 07 de julho de 2017.

4. ENCARTA. Enciclopédia, 1993-1999 Microsoft Corporation.


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