Aula XI - Ética Profissional Psicanalítica
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INTRODUÇÃO

Poderíamos iniciar tratando do questionamento acerca do tema desta aula, por que articular Ética na Psicanálise Profissional: Freud, senão por acenar para a linha de pesquisa: problemas interdisciplinares de Ética e também, por assim entender, acenar para a genealogia do saber psicanalítico, pela captura do tema e pelo encantamento permanente. É evidente que desde seu aparecimento, a Psicanálise sofreu e sofre variações conceituais, estruturais, como também variações políticas de saberes e verdades.

Ao construir seus ensaios clínicos, o então, Dr. Freud, não só escandalizou Viena na época, como propôs novas formas de análise do psiquismo humano, de modo que, ao evidenciar a sexualidade da criança e ao colocar a possibilidade da escuta dos sentidos, ocasionou uma reorganização da subjetividade de quem fala. Freud conseguiu no século XIX, com sua incansável determinação e estatutos pessoais, fazer transbordar, na ocasião, o escândalo da desconstrução da infância, tida como pura e inocente desde o século XVII, fazendo ainda com que a sociedade, naquele momento, pensasse inclusive numa “cura” sem medicamentos e invasões corporais objetivas ou visíveis.

Desse modo, envolta em uma aura transgressora e distante da moral burguesa, a Psicanálise surge de forma inventiva e parcialmente cara ao seu descobridor. Podemos entender, até mesmo, como inventiva, porque, sobretudo, o desejo de Freud, embora inicialmente fosse de fazer da Psicanálise uma ciência natural, em que a neutralidade e a imparcialidade são tidas como tarefas principais do pesquisador, garantindo a possibilidade de desvendar a verdade implícita, o que conferiria o caráter de descoberta; com a Psicanálise não foi possível, ele acenou para a garantia de uma invenção.

Cara, justamente, pelo reconhecimento de ser o "inventor" de algo novo e irreverente para a época, o que lhe conferiu o repúdio no meio científico. Porquanto, assumimos, que estamos tratando de dois temas que parecem completamente distintos: de um lado, a Ética, tal como é genericamente definida pela Filosofia. Portanto, uma disciplina responsável pela investigação dos princípios que determinam, orientam e motivam o comportamento moral, e que procura fundamentar e definir a natureza do bem e do mal; de outro, a Psicanálise, definida por Freud:

como um procedimento para a investigação de processos mentais que são quase inacessíveis por qualquer outro modo, (1) um método (baseado nessa investigação) para o tratamento de distúrbios neuróticos e (2) uma coleção de informações psicológicas obtidas ao longo dessas linhas, e que gradualmente se acumula numa nova disciplina científica.3

Igualmente, assinalamos que tanto a Ética como a Psicanálise se interessam pelos comportamentos dos indivíduos, dos quais entende-se surgir um campo de interseção. Na última década,4 esse ponto de interseção parece ter tomado maior visibilidade e alguns autores produziram textos nos quais se faz: uma leitura da crise ética vivida na atualidade a partir do referencialpsicanalítico (KHEL, 2002; ROSSI, 2001; SOUZA, 1998; COSTA, 1994; GAMPEL, 1992, entre outros), outros tratam da questão da neutralidade (ZEDDIES, 2000), do sigilo (WINNER; LAX, 2002), do diagnóstico (MEISSNER, 1994), da qualidade dos atendimentos (WILDLÖCHER, 1998) e do estatuto científico da psicanálise (BIRMAN, 1994; KLIMOVSKY; DEPETIT; ZYSMAN, 1995). Mas, sem dúvida existem autores que apontam a incompatibilidade entre o método psicanalítico e a ética (ALLOUCH,1997) por meio da denúncia de um processo de ‘etificação’ da psicanálise    há também quem critique essa posição. (MEZAN, 1998b). 5

 

Assim, a Psicanálise está ao lado da "invenção", conforme defende Kehl citando Mouammar, se ela pode propor um valor para a modernidade, este é a alteridade, a aceitação do outro em sua semelhança na diferença, sendo essa aceitação a base para a construção de uma Ética para os tempos atuais.6 A principal preocupação da Psicanálise em relação ao tema da Ética é a de desvendar a gênese da consciência moral e dos sentimentos éticos no indivíduo e na sociedade; pois, o Pai da Psicanálise tinha forte embasamento para pensar e objetivar a clínica. Sobretudo porque a clínica revela fatores indispensáveis sobre as vicissitudes humanas. Sabe-se que sua percepção científica denunciava que a consciência moral tem profunda relação com o estabelecimento das neuroses. Desse modo, pode-se afirmar também que a relação de Freud com o discurso filosófico é de certo modo ondulante, múltipla e ambivalente: 

 

De um lado, Freud não possui fórmulas bastante incisivas para desautorizar a filosofia de suas pretensões de legiferar sobre a ciência psicanalítica; de outro, reconhece humildemente sua importância na ‘atividade de pensamento’ humano. 7

 

A Psicanálise não se propõe como uma “nova ética” ao mundo moderno. A questão da Psicanálise e o abalo provocado estão justamente aprofundadas em algumas conjecturas a respeito das relações do homem com o Bem, exigindo que repensássemos os fundamentos éticos do laço social numa perspectiva considerável acerca das determinações inconscientes da ação humana.8


1 Utiliza-se com intenção de ligação, de junção entre os autores escolhidos para dissertar, ‘interligando psicanalistas a filósofos’.

2 PALOMBINI, Analice de Lima. Decifra-me ou te devoro! Notas sobre o desassossego nas relações entre psicanálise e epistemologia. In: Revista da associação psicanalítica de Porto Alegre. Porto Alegre: Associação Psicanalítica de Porto Alegre, 1995. n.18.

3 LALANDE, A. (1926) Vocabulário Técnico e Crítico de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

4 FREUD, Sigmund. [1923b] Dois Verbetes de Enciclopédia. v. XVIII, In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, 1990, p. 253-314.

5 JUNQUEIRA, Camila. Ética e Consciência Moral: a teoria, a clínica e o outro. In: Impulso, Piracicaba, 21(52), 7-18, jul.- dez. 2011.

6 Apud JUNQUEIRA, Op. cit., p.8.

7 MOUAMMAR, Christiane Carrijo Eckhardt. Psicanálise e ética: uma reflexão. Piracicaba: Impulso, 21(52), 99-101, jul.-dez. 2011.

8 KEHL, Maria Rita. Sobre ética e psicanálise. São Paulo: Companhia das letras, 2002.


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