Leitura criativa de Vidas Secas
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 Processo
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 Conclusão
 Créditos
 

É próprio das obras literárias, sejam elas em verso ou em prosa, clássicas ou contemporâneas, suscitar múltiplas e diversas possibilidades de leitura. Essas múltiplas e diversas possibilidades de leitura podem se realizar de muitas formas diferentes. A experiência de ler uma epopeia, um romance, um conto, um poema, uma peça teatral pode suscitar, no leitor, o desejo de partilhar a sua leitura com outros leitores, seja através de encontros de leitura conjunta – como aqueles que nós experenciamos juntos nas nossas videoconferências e fóruns –, seja através da escrita e da publicação da leitura sob a forma de resenhas críticas, ensaios, artigos científicos, dissertações de mestrado, teses de doutorado, ou, ainda, por meio da criação de outros obras artísticas inspiradas naquela que se leu. A experiência de leitura de um texto literário pode resultar não só na criação de uma outra obra literária que dialogue com aquela em que foi inspirada, mas também na criação de um filme, de uma peça teatral, de uma canção, de HQs, graphicnovels, fanfictions (fanfics), gravuras, pinturas, e as possibilidades de leituras criativas não param por aí, são mesmo inesgotáveis e imprevisíveis.

A critério de curiosidade, um exemplo de diálogo intencional entre textos literários é o que ocorre entre o poema “Ítaca”, do poeta grego Konstantinos Kaváfis, que viveu entre o final do século XIX e início do século XX, e o poema de mesmo nome (“Ítaca”) da poeta brasileira Angélica Freitas, publicado em 2012. Os dois poemas se referem à ilha natal de Ulisses (também chamado de Odisseu), herói da mitologia greco-romana, que chegou até nós através das epopeias de Homero, mais especificamente através da Odisseia.

A Odisseia narra a longa e árdua viagem de retorno à casa de Ulisses, depois de ter lutado na Guerra de Troia. A Guerra durou dez anos, e esse herói grego demorou outros dez anos para conseguir retornar à Ítaca, onde era intenso e astutamente esperado por sua amada Penélope. Em seu poema, que faz referências bastantes diretas à Odisseia, Kaváfis aborda a viagem à Ítaca, ou melhor, a odisseia de Ulisses, como um processo próprio da experiência humana, que, por ser inevitável, é recomendável que seja encarado com paciência, perseverança e leveza para que não seja mais árduo do que o necessário, conforme evidencia já a primeira estrofe do poema:


Se partires um dia rumo a Ítaca
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes

nem o colérico Posídon te intimide;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes nem o bravio Posídon hás de ver,

se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
(KASÁVIS, 1982, p. 118, destaques nossos)


Angélica Freitas, por sua vez, em um claro diálogo com o poema de Kaváfis, evidenciado pela estrutura mesma do poema, parece abordar, ironicamente, a viagem à Ítaca não como metáfora de um processo inerente à experiência humana, mas, de modo bastante literal, como uma viagem turística à ilha Ítaca, situada no mar Jônico, um destino turístico que é, nos dias atuais, muito badalado entre aquelas pessoas que podem pagar por ele. A poeta, então, vale-se do poema de Kaváfis para, dentre outras possibilidades, problematizar um traço característico da contemporaneidade que é o imediatismo, a necessidade de agir de modo a obter compensação imediata, sem considerar apropriadamente as consequências para si e para os outros – “eu quero isso, e portanto preciso disso, e eu preciso disso agora, e se eu não conseguir isso, no momento exato em que eu acho que eu tenho que conseguir isso, eu sou um(a) fracassado(a)”. Além da tendência ao imediatismo, que costuma negligenciar ou mesmo desconsiderar por completo a noção de processo, de percurso, e a imprevisibilidade da vida, a poeta ainda destaca a tendência ao modismo, que estabelece padrões muito restritivos de beleza, de sucesso e de felicidade: “se eu não for assim ou não tiver isso, ou não quiser isso, eu não sou bonito(a) o suficiente, inteligente o bastante, feliz de verdade”.


se quiser empreender viagem a ítaca
ligue antes
porque parece que tudo em ítaca
está lotado
os bares os restaurantes

os hotéis baratos
os hotéis caros
já não se pode viajar sem reservas
ao mar jônico
e mesmo a viagem
de dez horas parece dez anos
escalas no egito?
nem pensar
e os freeshops estão cheios
de cheiros que você pode comprar
com cartão de crédito.

toda a vida você quis visitar a grécia
era um sonho de infância
concebido na adultidade
Itália, frança: adultério
(coisa de adultos?
não escuto resposta)
bem se quiser vá a ítaca
é mais barato ir à ilha de comandatuba
mas dizem que o azul do mal não é igual.
aproveite para mandar e-mails
dos cybercafés locais:
quem manda postais?
mande fotos digitais
torre no sol
leve hipoglós
em ítaca compreenderá
para que serve
a hipoglós.
(FREITAS, 2012, p. 50-51, destaques nossos)

 

São exemplos de leitura de um texto literário que resultaram em obras criativas o filme “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, e a canção “Oração Seca”, de Marcelo Silva. O filme, que é uma adaptação do romance homônimo de Graciliano Ramos, foi filmado nas cidades de Minador do Negrão e Palmeira dos Índios, localizadas no sertão de Alagoas – estado em que nasceu Graciliano Ramos – e foi lançado em 1963. Essa obra cinematográfica é pertencente ao movimento cinematográfico brasileiro chamado “Cinema Novo”, que se dedicava à abordagem de problemas sociais do país, e está disponível no YouTube através deste link:https://www.youtube.com/watch?v=do-ZTroCt-Y.

A canção “Oração Seca” foi composta por  Marcelo Silva, a propósito de um trabalho de leitura do romance Vida Secas, desenvolvido no âmbito da disciplina “Introdução à Leitura do Texto Literário: Prosa”, do curso de Letras da PUC Minas, e está disponível no YouTube através do link: https://www.youtube.com/watch?v=M-Z3myOQ91E.

 


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